sexta-feira, 6 de outubro de 2017

PENALIDADES TEMPORAIS.

O LIVRO DOS ESPÍRITOS. PARTE QUARTA. ESPERANÇAS E CONCOLAÇÕES. CAPÍTULO II. PENALIDADES E PRAZERES FUTUROS. PENALIDADES TEMPORAIS.

A alma quando reencarna encontra nas tribulações da vida o seu sofrimento; mas apenas o corpo sofre materialmente. Quando ela parte daqui como Espírito, não sofre mais dores físicas, mas, segundo as faltas que tenha cometido, pode ter dores morais mais cruciantes, e numa nova existência pode ser ainda mais infeliz. O mal rico passará a esmolar e estará submetido a todas as privações da miséria; o orgulhoso, a todas as humilhações; aquele que abusa de sua autoridade e trata os seus subordinados com desprezo e dureza será forçado a obedecer a um senhor mais duro do que ele tenha sido. Todas as penas e atribulações da vida são expiações de faltas de outra existência, quando não se trata de consequências das faltas da existência atual.  O ser humano que se crê feliz na Terra porque pode satisfazer suas paixões é o que faz  menos esforços para se melhorar. Em geral, ele começa a expiar essa felicidade efêmera na própria vida que leva, mas certamente a expiará numa outra existência tão material como essa.
As vicissitudes da vida são provas impostas escolhidas por nós mesmos, quando no estado de Espírito e antes da nossa reencarnação para expiar as faltas cometidas numa outra existência. Mas se nós não a escolhermos, o poder Divino escolherá. Porque jamais a infração das leis de Deus, e, sobretudo da lei de justiça, fica impune; se a punição não é feita nesta vida, será necessariamente em outra. É por isso que aquele que é justo aos nossos olhos vê-se frequentemente atingido pelo seu passado.
A reencarnação da alma num mundo menos grosseiro é a consequência da nossa purificação. Porque, à medida que os Espíritos se purificam, vão encarnando em mundos mais perfeitos, até que se tenham despojado de toda matéria e lavado de todas as manchas, para gozarem eternamente da felicidade dos Espíritos puros no seio de Deus.
Comentário de Kardec: Nos mundos em que a existência é menos material do que neste, as necessidades são menos grosseiras e todos os sofrimentos físicos são menos vivos. Os seres não mais conhecem as más paixões que, nos mundos inferiores, os fazem inimigos uns dos outros. Não tendo nenhum motivo de ódio ou de ciúme, vivem em paz porque praticam a lei de justiça, amor e caridade. Não conhecem os aborrecimentos e os cuidados que nascem da inveja, do orgulho e do egoísmo, e que constituem o tormento de nossa existência terrena.
O Espírito que progrediu na sua existência terrena pode às vezes reencarnar no mesmo mundo, se não pôde cumprir a sua missão e ele mesmo pedir para completá-la numa nova existência. Mas então não será mais para ele uma expiação.
O ser humano que, sem praticar o mal, nada fez para se libertar da influência da matéria, desde que não deu nenhum passo na direção da perfeição, deve  recomeçar uma existência semelhante a que deixou. Fica estacionário e é assim que pode prolongar os sofrimentos de sua expiação.
Há Pessoas para as quais a vida flui numa serenidade perfeita; que, não tendo necessidade de fazer qualquer coisa para si mesma, não estão livres de cuidados. Essa existência feliz não é uma prova de que nada têm a expiar de uma existência anterior
Em geral essa serenidade não é mais do que aparente. Podem ter escolhido essa existência, mas, quando a deixam, percebem que ela não os ajudou a progredir; então, como os preguiçosos, lamentam o tempo perdido. Sabei que o Espírito não pode adquirir conhecimento e se elevar senão através da atividade; se ele adormece na despreocupação, não se adianta. E semelhante àquele que, de acordo com os nossos costumes, tem necessidade de trabalhar e vai passear ou dormir para nada fazer. Sabei também que cada qual terá de prestar contas da inatividade voluntária durante a sua existência; essa inutilidade é sempre fatal à felicidade futura. A soma da felicidade futura está na razão da soma do bem que tiver feito; a da infelicidade, na razão do mal e dos infelizes que se tenham feito.
Pessoas que sem serem positivamente más, se tornam infelizes em virtude de seu caráter, isto é junto a todos os que as rodeiam.
Essas pessoas seguramente não são boas e expiarão pela visão daqueles que se tornaram infelizes, cuja presença constituirá para elas uma exprobração. Depois, numa outra existência, sofrerão aquilo que fizeram sofrer.

BIBLIOGRAFIA: O LIVRO DOS ESPÍRITOS.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

RESSURREIÇÃO DA CARNE

O LIVRO DOS ESPÍRITOS. PARTE QUARTA. ESPERANÇAS E CONSOLAÇÕES. CAPITULO II. PENALIDADES E PRAZERES FUTUROS. RESSURREIÇÃO DA CARNE.
0 dogma da ressurreição da carne é a consagração da reencarnação ensinada pelos Espíritos.
Dá-se com essa expressão o que se dá com tantas outras que só parecem desarrazoadas aos olhos de certas pessoas que a tomam ao pé da letra e por isso são levadas à incredulidade. Dai-lhe, porém, uma interpretação lógica, e esses a que chamamos livres-pensadores a admitirão sem dificuldade, precisamente porque raciocinam. Não nos enganemos, esses livres-pensadores nada mais procuram do que crer; eles têm como os outros, mais talvez do que os outros, ansiedade pelo futuro, mas não podem admitir o que é absurdo para a Ciência. A doutrina da pluralidade das existências se conforma à justiça de Deus; somente ela pode explicar o que sem ela é inexplicável. Como queremos que esse princípio não esteja na Religião.
Então a Igreja, pelo dogma da ressurreição da carne, ensina a doutrina da reencarnação.
Essa doutrina é a consequência de muitas coisas que passaram despercebidas e que não se tardará a compreender nesse sentido; dentro em pouco se reconhecerá que o Espiritismo ressalta a cada passo do próprio texto das Escrituras Sagradas. Os Espíritos não vêm, portanto, subverter a Religião, como pretendem alguns, mas pelo contrário vêm confirmá-la, sancioná-la através de provas irrecusáveis. E como é chegado o tempo de substituir a linguagem figurada, falam sem alegorias, dando às coisas um sentido claro e preciso que não possa ser objeto de nenhuma falsa interpretação. Eis porque dentro de algum tempo teremos mais pessoas sinceramente religiosas e crentes do que as temos hoje.
Comentário de Kardec: A Ciência demonstra a impossibilidade da ressurreição segundo a ideia vulgar. Se os despojos do corpo humano permanecessem homogêneos, embora dispersados e reduzidos a pó, ainda se conceberia a sua reunião em determinado tempo; mas as coisas não se passam assim. O corpo é formado por elementos diversos: oxigênio, hidrogênio, azoto, carbono etc. Pela decomposição, esses elementos se dispersam, mas vão servir à formação de novos corpos, e isso de tal maneira que a mesma molécula, por exemplo, de carbono, entrará na composição de muitos milhares de corpos diferentes (não falamos senão dos corpos humanos, sem contar os dos animais). Dessa maneira, um indivíduo pode ter em seu corpo moléculas que pertenceram aos seres humanos dos primeiros tempos. E essas mesmas moléculas orgânicas que absorvemos dos nossos alimentos provêm talvez do corpo de um indivíduo que conhecemos, e assim por diante. Sendo a matéria de quantidade definida e suas transformações em número indefinido como poderia cada um desses corpos reconstituir-se com seus mesmos elementos. Há nisso uma impossibilidade material. Não se pode, portanto, racionalmente admitir a ressurreição da carne, senão como uma figura simbolizando o fenômeno da reencarnação. E então nada há que choque a razão, nada que esteja em contradição com os dados da Ciência.
É verdade que segundo o dogma essa ressurreição não deve ocorrer senão no fim dos tempos, enquanto segundo a doutrina espírita ocorre todos os dias. Mas não há também nesse quadro do julgamento final uma grande e bela figura que oculta, sob o véu da alegoria, uma dessas verdades imutáveis que os céticos não rejeitarão quando forem conduzidas à verdadeira significação. Que se medite bem a teoria espírita sobre o futuro das almas e sobre a sua sorte, em consequência das diferentes provas que devem sofrer, e se verá que, com exceção da simultaneidade, o julgamento em que são condenadas ou absolvidas não é uma ficção como pensam os incrédulos. Consideremos ainda que ela é a consequência natural da pluralidade dos mundos, hoje perfeitamente admitida, enquanto, segundo a doutrina do julgamento final, a Terra é considerada como o único mundo habitado.

Estas respostas de São Luís confirmam a natureza religiosa do Espiritismo, ressaltada por Kardec, em que a Doutrina é apresentada como desenvolvimento histórico do Cristianismo. Estranham alguns que o Espírito use o título de santo, mas é evidente que o usa como meio de identificação. Aliás, como ensina Kardec, os títulos terrenos nada representam para os Espíritos superiores, podendo ser usados por eles quando se fizer necessário, como neste caso.
A pluralidade dos mundos habitados era admitida como possibilidade no tempo de Kardec, como o é hoje, embora a Ciência não a admita como verdade comprovada. Flammarion publicou uma grande obra a respeito, traduzida para o português: “A pluralidade dos mundos  habitados”,  e  no  prefácio  de “O  desconhecido  e  os problemas psíquicos” declara com a sua autoridade de astrônomo: “A imortalidade através das esferas siderais parece-nos o complemento lógico da Astronomia”. Os astrônomos atuais procuram obter provas a respeito.

BIBLIOGRAFIA: O LIVRO DOS ESPÍRITOS.



quarta-feira, 4 de outubro de 2017

PARAÍSO, INFERNO E PURGATÓRIO.


As penas e os gozos são inerentes ao grau de perfeição do Espírito. Cada um traz em si mesmo o principio de sua própria felicidade ou infelicidade. E como eles estão por toda parte, nenhum lugar circunscrito ou fechado se destina a uns ou a outros. Quanto aos Espíritos encarnados, são mais ou menos felizes ou infelizes segundo o grau de evolução do mundo que habitam.
O inferno e o paraíso não existem como os seres humanos os representam.
Não são mais do que figuras alegóricas. Os Espíritos felizes e infelizes estão por  toda parte. Entretanto, como já o foi dito também, os Espíritos da mesma ordem se reúnem por simpatia. Mas podem reunir-se onde quiserem, quando perfeitos.
A localização absoluta dos lugares de penas e de recompensas só existe na imaginação dos seres humanos. Provém da sua tendência de materializar e circunscrever as coisas cuja natureza infinita não podem compreender.
O que se deve entender por purgatório, são dores físicas e morais: é o tempo da expiação. É quase sempre na Terra que fazemos o nosso purgatório e que Deus nos faz expiar as nossas faltas.
Aquilo que o ser humano chama purgatório é também uma figura pela qual se deve entender, não algum lugar determinado, mas o estado dos Espíritos imperfeitos que estão em expiação até a purificação completa que deve elevá-los ao plano dos Espíritos felizes. Operando-se essa purificação nas diversas encarnações, o purgatório consiste nas provas da vida corpórea.
A explicação de que os Espíritos que revelam superioridade por sua linguagem tenham respondido a pessoas bastante sérias, a respeito do inferno e do purgatório, de acordo com as ideias vulgarmente admitidas. É que eles falam uma linguagem que possa ser compreendida pelas pessoas que os interrogam. Quando essas pessoas estão muito imbuídas de certas ideias, eles não querem chocá-las muito rudemente, para não ferir as suas convicções. Se um Espírito fosse dizer, sem precauções oratórias, a um muçulmano, que Maomé não era um profeta, seria muito mal recebido.
A explicação de que os Espíritos interrogados sobre a sua situação tenham respondido que sofriam as torturas do inferno ou do purgatório, é.
Quando eles são inferiores e não estão completamente desmaterializados, conservam uma parte de suas ideias terrenas e traduzem as suas impressões pelos termos que lhes são familiares. Encontram-se num meio que não lhes permite sondar o futuro senão de maneira deficiente. Essa é a causa por que em geral os Espíritos errantes, ou recentemente libertados, falam como teriam feito se estivessem na vida carnal. Inferno pode traduzir-se por uma vida de provas extremamente penosas, com a incerteza de melhora; purgatório, por uma vida também de provas, mas com a consciência de um futuro melhor. Quando sofremos uma grande dor, não dizemos que sofremos como um danado. Não são mais que palavras, sempre em sentido figurado.
Alma penada é uma alma errante e sofredora, incerta do seu futuro, à qual podemos proporcionar um alívio que frequentemente ela solicita ao vir comunicar-se convosco.
A palavra Céu geralmente é pensamento do ser humano, ser que seja um lugar como os Campos Elísios dos antigos, onde todos os bons Espíritos estão aglomerados e confundidos, sem outra preocupação que a de gozar na eternidade uma felicidade passiva. Não. É o espaço universal; são os planetas, as estrelas e todos os mundos superiores em que os Espíritos gozam de todas as suas faculdades, sem as atribulações da vida material nem as angústias inerentes à inferioridade.
Sobre o pronunciamento de alguns Espíritos que disseram habitar o quarto, o quinto céu etc., quer dizer que céu habitam, porque tendemos a ideia de muitos céus sobrepostos como os andares de uma casa; então eles respondem de acordo com a nossa linguagem. Mas para eles as palavras “quarto, quinto céu” exprimem diferentes graus de purificação e, por conseguinte de felicidade.  É exatamente como quando se pergunta a um Espírito se ele está no inferno. Se for infeliz dirá que sim, porque para ele inferno é sinônimo de sofrimento; mas ele sabe muito bem que não se trata de uma fornalha. Um pagão nos responderia que estava no Tártaro.
Comentário de Kardec: Acontece o mesmo com outras expressões análogas, tais como as de cidade das flores, cidade dos eleitos, segunda ou terceira esfera etc., que não são mais do que alegorias empregadas por certos Espíritos seja como figuras, seja por ignorância da realidade das coisas e mesmo das mais simples noções científicas.
Segundo a ideia restrita que outrora se fazia dos lugares de penas e de recompensas, e, sobretudo de acordo com a opinião de que a Terra era o centro do Universo, que o céu formava uma abóbada na qual havia uma região de estrelas,  colocava-se o céu no alto e o inferno em baixo. Dai as expressões: subir ao céu, estar no mais alto dos céus, ser precipitado no inferno. Hoje que a Ciência demonstrou que a Terra não é mais do que um dos menores mundos entre tantos milhões de outros, e sem importância especial; que traçou a história da sua formação e descreveu a sua constituição, provando que o espaço é infinito, de maneira que não há nem alto nem baixo no Universo, faz-se necessário renunciar a colocar o céu acima das nuvens e o inferno nos lugares baixos. Quanto ao purgatório, nenhum lugar lhe havia sido marcado. Estava reservado ao Espiritismo dar sobre todas essas coisas a mais racional explicação, a mais grandiosa e ao mesmo tempo a mais consoladora para a Humanidade. Assim, podemos dizer que trazemos em nós mesmos o nosso inferno e o nosso paraíso e que encontramos o nosso purgatório em nossa encarnação, em nossas vidas corpóreas ou físicas.
A explicação das palavras do Cristo: “Meu reino não é deste mundo”, é que o Cristo falou em sentido figurado. Queria dizer que não reina senão sobre os corações puros e desinteressados. Ele está em todos os lugares em que domine o amor do bem, mas os seres humanos, ávidos das coisas deste mundo e ligados aos bens da Terra, não estão com ele.
O reino do bem poderá um dia realizar-se na Terra quando, entre os Espíritos que a vêm habitar, os bons superarem os maus. Então eles farão reinar o amor e a justiça, que são a fonte do bem e da felicidade. São pelo progresso moral e pela prática das leis de Deus que o ser humano atrairá para a Terra os bons Espíritos e afastará os maus. Mas os maus só a deixarão quando o ser tiver banido daqui o orgulho e o egoísmo.
A transformação da Humanidade foi predita e chegamos a esse momento em que todos os seres humanos progressistas estão se apressando. Ela se realizará pela encarnação de Espíritos melhores, que constituirão sobre a Terra uma nova geração. Então os Espíritos dos maus, que a morte ceifa diariamente, e todos os que tendem a deter a marcha das coisas serão excluídos, porque estariam deslocados entre os seres de bem, cuja felicidade perturbariam. Irão para mundos novos, menos adiantados, cumprir missões penosas, nas quais poderão trabalhar pelo seu próprio adiantamento ao mesmo tempo que trabalharão para o adiantamento de seus irmãos ainda mais atrasados.  E no ser humano que veio à Terra em condições semelhantes, trazendo em si os germes de suas paixões e os traços de sua inferioridade primitiva, a  figura não menos sublime do pecado original. Considerado dessa maneira, o pecado original se refere à natureza ainda imperfeita do ser que só é responsável por si mesmo e por suas próprias faltas, e não pelas dos seus pais.
Nós todos, seres de fé e de boa vontade, trabalhemos, portanto, com zelo e com coragem na grande obra da regeneração, porque colheremos centuplicado o grão que tivermos semeado. Infelizes dos que fecham os olhos à luz, pois preparam para si mesmos longos séculos de trevas e de decepções. Infelizes dos que colocam todas as suas alegrias nos bens deste mundo, porque sofrerão mais privações que os gozos que tenham tido. Infelizes, sobretudo dos egoístas, porque não encontrarão ninguém para ajudá-los a carregar o fardo das suas misérias.


BIBLIOGRAFIA: O LIVRO DOS ESPÍRITOS.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

EXPIAÇÃO E ARREPENDIMENTO.

0 LIVRO DOS ESPÍRITOS. PARTE QUARTA. ESPERANÇAS E CONSOLAÇÕES. CAPÍTULO II. PENALIDADES E PRAZERES TERRENOS. EXPIAÇÃO E ARREPENDIMENTO.

O arrependimento se verifica no estado espiritual, mas pode também verificar-se no estado corpóreo, quando bem compreendermos a distinção entre o bem e o mal.
A consequência do arrependimento no seu estado espiritual vem se o desejo for uma nova encarnação para se purificar. O Espírito compreende as imperfeições que o impedem de ser feliz e aspira a uma nova existência, onde possa expiar as suas faltas.
A consequência do arrependimento no estado corpóreo é adiantar-se ainda na vida presente, se houver tempo para reparação das faltas. Quando a consciência reprova e mostra uma imperfeição, sempre se pode melhorar.
Há seres humanos que só possuem o instinto do mal, sendo inacessíveis ao arrependimento.
Mas devem progredir sem cessar. Aquele que nesta vida só possui o instinto do mal, numa outra terá o do bem, e é para isso que renasce muitas vezes, pois é necessário que todos avancem e atinjam o alvo, uns com mais rapidez, e outros de maneira mais demorada, segundo os seus desejos. Aquele que só tem o instinto do bem já está purificado, porque pode ter tido o do mal numa existência anterior.
O ser humano perverso, que durante a vida não reconheceu suas faltas, sempre as reconhecerá depois da morte. Sempre as reconhece e então sofre mais porque sente todo o mal que praticou ou do qual foi à causa voluntária. Entretanto, o arrependimento nem sempre é imediato. Há Espíritos que se obstinam no mau caminho apesar dos sofrimentos, mas, cedo ou tarde, reconhecerão haver tomado uma senda falsa e o arrependimento se manifestará. É para esclarecê-los que os bons Espíritos trabalham e que eles mesmos podem trabalhar.
Há Espíritos que sem serem maus, sejam indiferentes à própria sorte. São os que não se ocupam de nada útil: estão na expectativa.
Mas sofrem de acordo com a situação, e como em tudo deve haver progresso, este se manifesta pela dor.
Têm eles o desejo de abreviar seus sofrimentos, mas não dispõem de bastante energia para querer o que os poderia aliviar. Quantas pessoas entre nós preferem morrer na miséria a trabalhar.
Tem Espíritos que veem o mal que resulta de suas imperfeições, e alguns agravam a sua posição e prolongam o seu estado de inferioridade praticando o mal como Espírito e desviam os seres do bom caminho.
São os de arrependimento tardio que agem assim. O Espírito que se arrepende pode se deixar novamente arrastar ao caminho do mal por outros Espíritos ainda mais atrasados.
Tem Espíritos de notória interioridade que são acessíveis aos bons sentimentos e às preces feitas em seu lavor. E tem outros  Espíritos, que nos pareceriam mais esclarecidos, revelam um endurecimento e um cinismo a toda prova.
A explicação é que a prece só tem efeito em favor do Espírito que se arrepende. Aquele que, impulsionado pelo orgulho, se revolta contra Deus e persiste nos seus erros, exagerando-os ainda, como o fazem infelizes Espíritos, nada pode receber da prece e nada receberá até o dia em que uma luz de arrependimento o esclareça.
Comentário de Kardec:  Não se deve esquecer que após a morte do corpo físico, o Espírito não é subitamente transformado. Se sua vida foi repreensível é que ele era imperfeito. Ora, a morte não o torna imediatamente perfeito. Ele pode persistir nos seus erros, nas suas falsas opiniões, em seus preconceitos até que seja esclarecido pelo estudo pela reflexão e pelo sofrimento.
A expiação se realiza no estado corpóreo, através das provas a que o Espírito é submetido, e na vida espiritual, pelos sofrimentos morais decorrentes do seu estado de inferioridade.
Quanto ao arrependimento sincero durante a vida se é suficiente para extinguir as faltas e fazer que se mereça a graça de Deus. Podemos dizer que o arrependimento auxilia a melhora do Espírito, mas o passado deve ser expiado.
Se um criminoso dissesse que, tendo de expiar o passado, não precisa se arrepender, as consequências para ele seriam:
Se teimar no pensamento do mal, sua expiação será mais longa e  mais penosa.
Podemos, desde esta vida, resgatar as nossas faltas reparando-as. Mas não julguemos resgatá-las por algumas privações pueris ou por meio de doações de após a morte, quando de nada mais necessitamos. Deus não considera um arrependimento estéril, sempre fácil e que só custa o trabalho de bater no peito. A perda de um dedo, quando se presta um serviço, apaga maior número de faltas do que o cilício suportado durante anos, sem outro objetivo que o bem de si mesmo. O mal não é reparado senão pelo bem, e a reparação não tem mérito algum se não atingir o ser humano no seu orgulho ou nos interesses materiais. De que lhe serve restituir após a morte, como justificativa, os bens mal adquiridos, que foram desfrutados em vida e já não lhe servem para nada. De que lhe serve a privação de alguns gozos fúteis e de algumas superfluidades, se o mal que fez a outrem continua o mesmo. De que lhe serve, enfim, humilhar-se diante de Deus, se conserva o seu orgulho diante dos seres humanos.
Não há nenhum mérito em se assegurar, após a morte, um emprego útil para os bens que deixamos.
Nenhum mérito não é bem o termo: isso vale sempre mais do que nada; mas o mal é que aquele que dá ao morrer geralmente é mais egoísta do que generoso; quer ter as honras do bem sem lhe haver provado as penas. Aquele que se priva em vida tem duplo proveito: o mérito do sacrifício e o prazer de ver felizes os que beneficiou. Mas há sempre o egoísmo a dizer ao ser humano: O que dás tiras dos teus próprios gozos. E como o egoísmo fala mais alto que o desinteresse e a caridade, ele guarda em vez de dar, sob o pretexto das suas necessidades e das exigências da sua posição. Ah! Lastimai aquele que desconhece o prazer de dar, porque foi realmente deserdado de um dos mais puros e suaves gozos do ser. Deus, submetendo-o à prova da fortuna, tão escorregadia e perigosa para o seu futuro, quis dar-lhe em compensação à ventura da generosidade, de que ele pode gozar neste mundo.
Aquele que em artigo de morte reconhece as suas faltas, mas não tem tempo para repará-las, o arrependimento apressa a sua reabilitação, mas não o absolve. Tem ele o futuro pela frente, que jamais se lhe fecha.

BIBLIOGRAFIA: O LIVRO DOS ESPÍRITOS.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O NADA. VIDA FUTURA.



PARTE QUARTA. ESPERANÇAS E CONSOLAÇÕES. CAPÍTULO II.
PENALIDADDES E PRAZERES FUTUROS. O NADA. VIDA FUTURA.


O ser humano repele instintivamente o nada porque ele não existe.
O sentimento instintivo da vida futura vem para o ser humano antes da encarnação. O Espírito conhece todas essas coisas, e a alma guarda uma vaga lembrança do que sabe e do que viu no estado espiritual.
Comentário de Kardec: Em todos os tempos, o ser humano se preocupou com o futuro de além-túmulo, o que é muito natural. Qualquer que seja a importância dada à vida presente, ele não pode deixar de considerar quanto é curta e, sobretudo precária, pois pode ser interrompida a cada instante e jamais ele se acha seguro do dia de amanhã. Em que se tornará depois do instante fatal? A pergunta é grave, pois não se trata de alguns anos, mas da eternidade. Aquele que deve passar longos anos num país estrangeiro se preocupa com a situação em que se encontrará no mesmo. Como não nos preocuparmos com a que teremos ao deixar este mundo, desde que o será para sempre?
A ideia do nada tem algo que repugna à razão. O ser humano mais despreocupado nesta vida, chegado o momento supremo, pergunta a si mesmo o que será feito dele e involuntariamente fica na expectativa.
Crer em Deus sem admitir a vida futura seria um contrassenso. O sentimento de uma existência melhor está no foro íntimo de todos os seres e Deus não o pôs ali em vão.
A vida futura implica a conservação da nossa individualidade após a morte.  Que nos importaria sobreviver ao corpo, se a nossa essência moral tivesse de perder-se no oceano do infinito? As consequências disso para nós seriam as mesmas do nada.
BIBLIOGRAFIA: O LIVRO DOS ESPÍRITOS.


domingo, 1 de outubro de 2017

DESGOSTO DA VIDA. SUICÍDIO.

O desgosto pela vida que se apodera de alguns  indivíduos sem motivos plausíveis trata-se do efeito da ociosidade, da falta de fé e geralmente da sociedade. Para aqueles que exercem as suas faculdades com um fim útil e segundo as suas  aptidões naturais, o trabalho nada tem de árido e a vida se escoa mais rapidamente; suportando as suas vicissitudes com tanto mais paciência e  resignação. Quanto mais agem tendo em vista a felicidade mais sólida é mais durável que os espera.
O ser humano não tem o direito de dispor da sua própria vida.. Somente Deus tem esse direito. O suicídio voluntário é uma   transgressão dessa lei.
 O suicídio acontece porque o louco que se mata não sabe o que faz.
O suicídio que tem por causa o desgosto da vida trata-se de uma insensatez. Por que se trabalhassem, a sua  existência não lhes teria sido tão pesada.
O suicida que tem por fim escapar das misérias e às decepções deste mundo são pessoas pobres Espíritos, que não tiveram a coragem de suportar as misérias  da existência! Deus ajuda aos que sofrem e não aos que não têm força nem coragem. As tribulações da vida são provas ou expiações. Felizes os que as suportam sem se queixar, porque serão recompensados! Infelizes, ao contrário, os que esperam uma saída nisso que, na sua impiedade, chamam de sorte ou acaso! A sorte ou acaso, para me servir de sua linguagem, podem favorecê-los por um instante, mas somente para lhes fazer sentir mais tarde, e de maneira mais cruel o vazio de suas palavras.
Os que levaram o desgraçado a esse ato de desespero sofrerão as consequências disso. Infelizes deles! Porque responderão como por um assassínio.
O ser humano que se vê às voltas com a necessidade e se deixa morrer de desespero pode ser considerado como suicida. Mas os que o causaram ou que o poderiam impedir são mais culpáveis que ele, a quem a indulgência espera. Não acrediteis, porém, que seja inteiramente absolvido se lhe faltou à firmeza e a perseverança, e se não fez uso de toda a sua inteligência para sair das dificuldades. Infeliz dele, sobretudo, se o seu desespero é filho do orgulho; quero dizer, se é um desses seres em que o orgulho paralisa os recursos da inteligência e que se envergonhariam se tivessem de dever a existência ao trabalho das próprias mãos, preferindo morrer de fome a descer do que chamam a sua posição social! Não há cem vezes mais grandeza e dignidade em lutar contra a adversidade, em enfrentar a crítica de um inundo fútil e egoísta, que só tem boa vontade para aqueles a quem nada falta, e que vos volta às costas quando dele necessitais? Sacrificar a vida à consideração desse mundo é uma coisa estúpida, porque ele não se importará com isso.
O suicida que tem por fim escapar à vergonha de uma ação má é tão repreensível como o que é levado pelo desespero.
O suicídio não apaga a falta. Pelo contrário, com ele aparecem duas em lugar de uma. Quando se teve a coragem de praticar o mal, é preciso tê-la para sofrer as consequências. Deus é quem julga. E, segundo a causa, pode, às vezes, diminuir o seu rigor.
O suicídio é perdoável quando tem por fim impedir que a vergonha envolva os filhos ou a família. Mas aquele que assim age não procede bem, mas acredita que sim, e  Deus levará em conta a sua intenção, porque será uma expiação que a si mesmo se impôs. Ele atenua a sua falta pela intenção, mas nem por isso deixa de cometer uma falta. De resto, se abolirdes os abusos da vossa sociedade e os vossos preconceitos, não tereis mais suicídios.
Comentário de Kardec: Aquele que tira a própria vida para fugir à vergonha de uma ação má, prova que tem mais em conta a estima dos seres humanos que a de Deus, porque vai entrar na  vida espiritual carregado de suas iniquidades, tendo-se privado dos meios de repará-las durante a vida. Deus é muitas vezes menos inexorável que os seres humanos: perdoa o arrependimento sincero e leva em conta o nosso esforço de reparação; mas o suicídio nada repara.
 O pensamento sobre aquele que tira a própria vida com a esperança de chegar mais cedo a uma vida melhor, podemos dizer tratar-se de outra loucura! Que ele faça o bem e estará mais seguro de alcançá-la, porque, daquela forma, retarda a sua entrada num mundo melhor e ele mesmo pedirá para vir completar essa vida que interrompeu por uma falsa ideia. Uma falta, qualquer que ela seja, não abre jamais o santuário dos eleitos.
É sublime se sacrificar a vida, quando tem por fim salvar a de outros ou ser útil aos semelhantes.
Isso de acordo com a intenção, e o sacrifício da vida não é então um suicídio. Mas Deus se opõe a um sacrifício inútil e não pode vê-lo com prazer, se estiver manchado pelo orgulho. Um sacrifício não é meritório senão pelo desinteresse, e aquele que o pratica tem, às vezes, uma segunda intenção que lhe diminui o valor aos olhos de Deus.
Comentário de Kardec: Todo sacrifício feito à custa da própria felicidade é um ato soberanamente meritório aos olhos de Deus, porque é a prática da lei de caridade. Ora, sendo a vida o bem terreno a que o ser humano dá maior valor, aquele que a ela renuncia pelo bem dos seus semelhantes não comete um atentado: é um sacrifício que ele realiza. Mas antes de realizá-lo deve refletir se a sua vida não poderá ser mais útil que a sua morte.
É um suicídio moral o ser humano que perece como vítima do abuso das paixões às quais não tem mais o poder de resistir, porque o hábito as transformou em verdadeiras necessidades físicas, comete um suicídio. Neste fator trata-se neste caso de ser duplamente culpado. Há nele falta de coragem e bestialidade, e, além disso, o esquecimento de Deus.
 É mais culpado do que aquele que corta a sua vida por desespero, porque teve tempo de raciocinar sobre o seu suicídio. Naquele que o comete instantaneamente há às vezes, uma espécie de desvario que se aproxima da loucura; o outro será muito mais punido, porque as penas são sempre proporcionadas à consciência que se tenha das faltas cometidas.
Sempre será culpado de não esperar o tempo fixado por Deus, aquela pessoa que vê à sua frente uma morte inevitável e terrível, é abrevia de alguns instantes o seu sofrimento, por uma morte.
Será sempre uma falta de resignação e de submissão à vontade do Criador.
As consequências de tal ação se trata de uma expiação proporcional à gravidade da falta, segundo as circunstâncias, como sempre.
Uma imprudência que compromete a vida sem necessidade não há culpabilidade quando não há a intenção ou a consciência positiva de fazer o mal.
As mulheres que, em certos países, que se queimam voluntariamente  sobre os corpos de seus maridos podem não ser consideradas como tendo se suicidado e não sofrem as consequências disso, por que:
Porque elas obedecem a um preconceito e geralmente o fazem mais pela força do que pela própria vontade. Acreditam cumprir um dever, o que não é característica do suicídio. Sua escusa está na falta de formação moral da maioria delas e na sua ignorância. Essas usanças bárbaras e estúpidas desaparecem com a civilização.
 Para aqueles que, não podendo suportar a perda de pessoas queridas, se matam, na esperança de se juntarem a elas, o resultado para elas é bastante diverso do que esperam, pois, em vez de se unirem ao objeto de sua afeição, dele se afastam por mais tempo, porque Deus não pode recompensar um ato de covardia e o insulto que lhe é lançado com a dúvida quanto à sua providencia. Eles pagarão esse instante de loucura com aflições ainda maiores do que aquelas que quiseram abreviar, e não terão para compensá-los a satisfação que esperavam.
As consequências do suicídio sobre o estado do Espírito são as mais diversas. Não há penalidades fixadas e em todos os casos elas são sempre relativas às causas que o produziram. Mas uma consequência a que o suicida não pode escapar é o desapontamento. De resto, a sorte não é a mesma para todos, dependendo das circunstâncias. Alguns expiam sua falta imediatamente, outros numa nova existência, que será pior que aquela cujo curso interromperam.
Comentário de Kardec: A observação mostra, com efeito, que as consequências do suicídio não são sempre as mesmas. Há, porém, as que são comuns a todos os casos de morte violenta, as que decorrem da interrupção brusca da vida. É primeira a persistência mais prolongada e mais tenaz do laço que liga o Espírito e o corpo, porque esse laço está quase sempre em todo o seu vigor no momento em que foi rompido, enquanto na morte natural se enfraquece gradualmente e em geral até mesmo se desata antes da extinção completa da vida. As consequências desse estado de coisas são a prolongação da perturbação espírita, seguida da ilusão que, durante um tempo mais ou menos longo, faz o Espírito acreditar que ainda se encontra no número dos vivos.
A afinidade que persiste entre o Espírito e o corpo produz, em alguns suicidas uma espécie de repercussão do estado do corpo sobre o Espírito, que, assim, ressente malgrado seu, os efeitos da decomposição, experimentando uma sensação cheia de angústia e horror. Esse estado pode persistir tão longamente quanto tivesse de durar a vida que foi interrompida. Esse efeito não é geral; mas em alguns casos o suicida não se livra das consequências de sua falta de coragem e, cedo ou tarde, expia essa falta, de uma ou de outra maneira.  É assim que certos Espíritos, que haviam sido muito infelizes na Terra, disseram haver se suicidado na existência precedente e estar voluntariamente submetidos a novas provas, tentando suportá-las com mais resignação. Em alguns, é uma espécie de apego à matéria, da qual procuram inutilmente desembaraçar-se para se dirigirem a mundos melhores, mas cujo acesso lhes é interditado. Na maioria, é o remorso de haverem feito uma coisa inútil, da qual só provam decepções.
A religião, a moral, todas as filosofias condenam o suicídio como contrário à lei natural. Todas nos dizem, em princípio, que não se tem o direito de abreviar voluntariamente a vida. Mas por que não se terá esse direito? Por que não se é livre de pôr um termo aos próprios sofrimentos? Estava reservado ao Espiritismo demonstrar, pelo exemplo dos que sucumbiram que o suicídio não é apenas uma falta como infração a uma moral, consideração que pouco importa para certos indivíduos, mas um ato estúpido, pois que nada ganha quem o pratica e até pelo contrário. Não é pela teoria que ele nos ensina isso, mas pelos próprios fatos que coloca sob os nossos olhos(1).

(1) 0 argumento espírita contra o suicídio não é apenas moral, como se vê, mas também biológico, firmando-se no princípio de ligação entre o Espírito e o corpo. A morte, como fenômeno natural, tem as suas leis, que o Espiritismo revelou através de rigorosa investigação. O sofrimento do suicida decorre do rompimento arbitrário dessas leis; é como arrancar à força um fruto verde da árvore.
— As estatísticas mostram que a incidência do suicídio é maior nos países e nas épocas em que a ambição e o materialismo se acentuam, provocando mais abusos e excitando preconceitos. A falta de organização social justa e de educação para todos é causa de suicídios e crimes… se abolirdes os abusos da vossa sociedade e os vossos preconceitos, não tereis mais suicídios.

BIBLIOGRAFIA. O LIVRO DOS ESPÍRITOS.