As penas
e os gozos são inerentes ao grau de perfeição do Espírito. Cada um traz em
si mesmo o principio de sua própria felicidade ou infelicidade. E como
eles estão por toda parte, nenhum lugar circunscrito ou fechado se destina
a uns ou a outros. Quanto aos Espíritos encarnados, são mais ou menos
felizes ou infelizes segundo o grau de evolução do mundo que habitam.
O inferno
e o paraíso não existem como os seres humanos os representam.
Não são mais do que figuras alegóricas. Os
Espíritos felizes e infelizes estão por toda
parte. Entretanto, como já o foi dito também, os Espíritos da mesma ordem
se reúnem por simpatia. Mas podem reunir-se onde quiserem, quando perfeitos.
A localização absoluta dos lugares de penas e de
recompensas só existe na imaginação dos seres humanos. Provém da sua tendência
de materializar e circunscrever as coisas cuja natureza infinita não
podem compreender.
O que se deve entender por purgatório, são dores físicas e morais: é o tempo da expiação. É quase
sempre na Terra que fazemos o nosso purgatório e que Deus nos faz expiar
as nossas faltas.
Aquilo que o ser humano chama purgatório
é também uma figura pela qual se deve entender, não algum lugar
determinado, mas o estado dos Espíritos imperfeitos que estão em expiação até a
purificação completa que deve elevá-los ao plano dos Espíritos felizes.
Operando-se essa purificação nas diversas encarnações, o purgatório consiste
nas provas da vida corpórea.
A explicação de que os Espíritos que revelam
superioridade por sua linguagem tenham respondido a pessoas bastante sérias, a
respeito do inferno e do purgatório, de acordo com as ideias vulgarmente
admitidas. É que eles falam uma linguagem que possa
ser compreendida pelas pessoas que os interrogam. Quando essas pessoas
estão muito imbuídas de certas ideias, eles não querem chocá-las muito
rudemente, para não ferir as suas convicções. Se um Espírito fosse dizer,
sem precauções oratórias, a um muçulmano, que Maomé não era um profeta,
seria muito mal recebido.
A explicação de que os Espíritos interrogados sobre
a sua situação tenham respondido que sofriam as torturas do inferno ou do
purgatório, é.
Quando
eles são inferiores e não estão completamente desmaterializados, conservam
uma parte de suas ideias terrenas e traduzem as suas impressões pelos
termos que lhes são familiares. Encontram-se num meio que não lhes permite
sondar o futuro senão de maneira deficiente. Essa é a causa por que em
geral os Espíritos errantes, ou recentemente libertados, falam como teriam
feito se estivessem na vida carnal. Inferno pode traduzir-se por uma
vida de provas extremamente penosas, com a incerteza de
melhora; purgatório, por uma vida também de provas, mas com a consciência
de um futuro melhor. Quando sofremos uma grande dor, não dizemos que sofremos
como um danado. Não são mais que palavras, sempre em sentido figurado.
Alma penada é uma alma
errante e sofredora, incerta do seu futuro, à qual podemos proporcionar um alívio
que frequentemente ela solicita ao vir comunicar-se convosco.
A palavra Céu geralmente é pensamento do ser humano,
ser que seja um lugar como os Campos
Elísios dos antigos, onde todos os bons Espíritos estão aglomerados e
confundidos, sem outra preocupação que a de gozar na eternidade uma
felicidade passiva. Não. É o espaço universal; são os planetas, as
estrelas e todos os mundos superiores em que os Espíritos gozam de todas
as suas faculdades, sem as atribulações da vida material nem as angústias
inerentes à inferioridade.
Sobre o pronunciamento de alguns Espíritos que
disseram habitar o quarto, o quinto céu etc., quer dizer que céu habitam, porque tendemos a ideia de
muitos céus sobrepostos como os andares de uma casa; então eles respondem
de acordo com a nossa linguagem. Mas para eles as palavras “quarto,
quinto céu” exprimem diferentes graus de purificação e, por conseguinte de
felicidade. É exatamente como quando se pergunta a um Espírito se
ele está no inferno. Se for infeliz dirá que sim, porque para
ele inferno é sinônimo de sofrimento; mas ele sabe muito bem que
não se trata de uma fornalha. Um pagão nos responderia que estava no
Tártaro.
Comentário de Kardec: Acontece o mesmo com outras expressões
análogas, tais como as de cidade das flores, cidade dos eleitos, segunda ou
terceira esfera etc., que não são mais do que alegorias empregadas por certos
Espíritos seja como figuras, seja por ignorância da realidade das coisas e
mesmo das mais simples noções científicas.
Segundo a ideia restrita que outrora se fazia dos
lugares de penas e de recompensas, e, sobretudo de acordo com a opinião de que
a Terra era o centro do Universo, que o céu formava uma abóbada na qual havia
uma região de estrelas, colocava-se o céu no alto e o inferno
em baixo. Dai as expressões: subir ao céu, estar no mais alto dos
céus, ser precipitado no inferno. Hoje que a Ciência demonstrou que a Terra não
é mais do que um dos menores mundos entre tantos milhões de outros, e sem
importância especial; que traçou a história da sua formação e descreveu a sua
constituição, provando que o espaço é infinito, de maneira que não há nem alto
nem baixo no Universo, faz-se necessário renunciar a colocar o céu acima das
nuvens e o inferno nos lugares baixos. Quanto ao purgatório, nenhum lugar lhe
havia sido marcado. Estava reservado ao Espiritismo dar sobre todas essas
coisas a mais racional explicação, a mais grandiosa e ao mesmo tempo a mais
consoladora para a Humanidade. Assim, podemos dizer que trazemos em nós mesmos
o nosso inferno e o nosso paraíso e que encontramos o nosso purgatório em nossa
encarnação, em nossas vidas corpóreas ou físicas.
A explicação das palavras do Cristo: “Meu reino não
é deste mundo”, é que o Cristo falou
em sentido figurado. Queria dizer que não reina senão sobre os corações
puros e desinteressados. Ele está em todos os lugares em que domine o amor
do bem, mas os seres humanos, ávidos das coisas deste mundo e ligados aos
bens da Terra, não estão com ele.
O reino do bem poderá um dia realizar-se na Terra quando, entre os Espíritos que a vêm
habitar, os bons superarem os maus. Então eles farão reinar o amor e a
justiça, que são a fonte do bem e da felicidade. São pelo progresso moral
e pela prática das leis de Deus que o ser humano atrairá para a Terra os
bons Espíritos e afastará os maus. Mas os maus só a deixarão quando o ser tiver
banido daqui o orgulho e o egoísmo.
A
transformação da Humanidade foi predita e chegamos a esse momento em que
todos os seres humanos progressistas estão se apressando. Ela se
realizará pela encarnação de Espíritos melhores, que constituirão sobre a
Terra uma nova geração. Então os Espíritos dos maus, que a morte ceifa
diariamente, e todos os que tendem a deter a marcha das coisas serão
excluídos, porque estariam deslocados entre os seres de bem, cuja
felicidade perturbariam. Irão para mundos novos, menos adiantados, cumprir
missões penosas, nas quais poderão trabalhar pelo seu próprio
adiantamento ao mesmo tempo que trabalharão para o adiantamento de seus
irmãos ainda mais atrasados. E no ser humano que veio à Terra em
condições semelhantes, trazendo em si os germes de suas paixões e os
traços de sua inferioridade primitiva, a figura não menos sublime
do pecado original. Considerado dessa maneira, o pecado original se
refere à natureza ainda imperfeita do ser que só é responsável por si
mesmo e por suas próprias faltas, e não pelas dos seus pais.
Nós todos, seres de fé e de boa
vontade, trabalhemos, portanto, com zelo e com coragem na grande obra da
regeneração, porque colheremos centuplicado o grão que tivermos semeado.
Infelizes dos que fecham os olhos à luz, pois preparam para si mesmos longos
séculos de trevas e de decepções. Infelizes dos que colocam todas as suas
alegrias nos bens deste mundo, porque sofrerão mais privações que os gozos
que tenham tido. Infelizes, sobretudo dos egoístas, porque não encontrarão
ninguém para ajudá-los a carregar o fardo das suas misérias.
BIBLIOGRAFIA: O LIVRO DOS ESPÍRITOS.
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