O LIVRO DOS ESPÍRITOS. PARTE
QUARTA. ESPERANÇAS E CONCOLAÇÕES. CAPÍTULO II. PENALIDADES E PRAZERES FUTUROS. PENALIDADES
TEMPORAIS.
A alma
quando reencarna encontra nas tribulações da vida o seu sofrimento; mas
apenas o corpo sofre materialmente. Quando ela parte daqui como Espírito,
não sofre mais dores físicas, mas, segundo as faltas que tenha cometido,
pode ter dores morais mais cruciantes, e numa nova existência pode ser
ainda mais infeliz. O mal rico passará a esmolar e estará submetido a
todas as privações da miséria; o orgulhoso, a todas as humilhações;
aquele que abusa de sua autoridade e trata os seus subordinados com
desprezo e dureza será forçado a obedecer a um senhor mais duro do que ele
tenha sido. Todas as penas e atribulações da vida são expiações de faltas
de outra existência, quando não se trata de consequências das faltas da
existência atual. O ser humano que se crê feliz na Terra porque
pode satisfazer suas paixões é o que faz menos esforços para se
melhorar. Em geral, ele começa a expiar essa felicidade efêmera na própria
vida que leva, mas certamente a expiará numa outra existência tão material
como essa.
As vicissitudes da vida são provas impostas escolhidas por nós mesmos,
quando no estado de Espírito e antes da nossa reencarnação para expiar as
faltas cometidas numa outra existência. Mas se nós não a escolhermos, o poder
Divino escolherá. Porque jamais a infração das leis de Deus, e, sobretudo
da lei de justiça, fica impune; se a punição não é feita nesta vida, será
necessariamente em outra. É por isso que aquele que é justo aos nossos
olhos vê-se frequentemente atingido pelo seu passado.
A reencarnação da alma num mundo menos grosseiro é a consequência da nossa purificação. Porque, à
medida que os Espíritos se purificam, vão encarnando em mundos mais perfeitos, até
que se tenham despojado de toda matéria e lavado de todas as manchas, para
gozarem eternamente da felicidade dos Espíritos puros no seio de Deus.
Comentário de Kardec: Nos mundos em que a existência é menos
material do que neste, as necessidades são menos grosseiras e todos os
sofrimentos físicos são menos vivos. Os seres não mais conhecem as más paixões
que, nos mundos inferiores, os fazem inimigos uns dos outros. Não tendo nenhum
motivo de ódio ou de ciúme, vivem em paz porque praticam a lei de justiça, amor
e caridade. Não conhecem os aborrecimentos e os cuidados que nascem da inveja,
do orgulho e do egoísmo, e que constituem o tormento de nossa existência
terrena.
O Espírito que progrediu na sua existência terrena
pode às vezes reencarnar no mesmo mundo, se não
pôde cumprir a sua missão e ele mesmo pedir para completá-la numa nova
existência. Mas então não será mais para ele uma expiação.
O ser humano que, sem praticar o mal, nada fez para
se libertar da influência da matéria, desde
que não deu nenhum passo na direção da perfeição, deve recomeçar uma
existência semelhante a que deixou. Fica estacionário e é assim que pode
prolongar os sofrimentos de sua expiação.
Há Pessoas para as quais a vida flui numa serenidade
perfeita; que, não tendo necessidade de fazer qualquer coisa para si mesma, não
estão livres de cuidados. Essa existência feliz não é uma prova de que nada têm
a expiar de uma existência anterior
Em geral
essa serenidade não é mais do que aparente. Podem ter escolhido essa existência,
mas, quando a deixam, percebem que ela não os ajudou a progredir;
então, como os preguiçosos, lamentam o tempo perdido. Sabei que o Espírito
não pode adquirir conhecimento e se elevar senão através da atividade; se
ele adormece na despreocupação, não se adianta. E semelhante àquele que,
de acordo com os nossos costumes, tem necessidade de trabalhar e vai
passear ou dormir para nada fazer. Sabei também que cada qual terá de
prestar contas da inatividade voluntária durante a sua existência; essa
inutilidade é sempre fatal à felicidade futura. A soma da felicidade
futura está na razão da soma do bem que tiver feito; a da infelicidade, na
razão do mal e dos infelizes que se tenham feito.
Pessoas que sem serem positivamente más, se tornam
infelizes em virtude de seu caráter, isto é junto a todos os que as rodeiam.
Essas
pessoas seguramente não são boas e expiarão pela visão daqueles que se
tornaram infelizes, cuja presença constituirá para elas uma exprobração.
Depois, numa outra existência, sofrerão aquilo que fizeram sofrer.
BIBLIOGRAFIA: O LIVRO DOS ESPÍRITOS.

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